Grupo que parou espetáculo luta contra "racismo institucional"

Integrantes do Coletivo Dandara Gusmão, que iniciaram debate sobre racismo (Fotos: Arisson Marinho)


Coletivo Dandara Gusmão reivindica pluralização da Escola de Teatro

No dia 1º de junho, munidos de faixas, cartazes e uma boa dose de indignação, estudantes negros invadiram o Teatro Martim Gonçalves, na Escola de Teatro da Ufba, e interromperam o espetáculo Sob as Tetas da Loba, dirigido pelo dramaturgo Paulo Cunha. Na plateia, as reações foram  variadas. Houve quem ficasse em pânico e até aqueles que acreditaram se tratar de parte da montagem. O fato é que o ato, que realmente não estava no roteiro, pode representar o início de uma mudança de cena histórica na unidade e na própria universidade.

O protesto foi direcionado não só contra a peça, que os estudantes consideraram de cunho racista, mas também contra o que chamam de “racismo institucional histórico” na Escola. Além de discussões acaloradas, a invasão desencadeou um processo administrativo contra os personagens da ação, uma audiência pública, um boletim de ocorrência registrado por uma professora, a entrega de uma moção à Reitoria com a assinatura de mais de 50 entidades negras e, como capítulo mais recente, o anúncio da criação de um Grupo de Trabalho para orientar a elaboração de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) antirracista.

Ouvimos quase duas dezenas de estudantes, professores e funcionários da Ufba confirmaram que a Escola de Teatro está rachada. Eles definem o momento como tenso, traumático e necessário. A reportagem passou uma tarde e uma manhã  entrevistando pessoas que circulavam no local . A situação é tão delicada que a maioria não quer se identificar. Boa parte dos estudantes, inclusive brancos, apoia a organização Dandara Gusmão, que organizou o protesto e abriu as cortinas para a  discussão.

Para Ronald Vaz, aluno negro da pós-graduação, um dos poucos que autorizaram ter o nome divulgado, o espetáculo Sob as Tetas da Loba foi a gota d´água para a ação da Dandara Gusmão.

    “Uma postura acertada. O contexto da peça é racista. O racismo está presente em todas as instituições da Ufba, mas na Escola de Teatro isso é ainda mais notório”, afirma Ronald.

Ele diz que não são de hoje os questionamentos referentes às seleções de elencos para as peças, por exemplo. “A Dandara sempre fez várias colocações e solicitações para pluralização dos espaços da Escola e nunca foi atendida. Tem uma hora que a coisa estoura”, disse Ronald, que entrou  na unidade em  2011.

Outra parte dos alunos considera o grupo radical e enxergou a invasão como agressiva e sem sentido. “Assisti a estreia e não vi nenhuma das questões que estão sendo levantadas. O que eu vi foi uma peça sendo encenada, de um texto que não era do próprio diretor, de um autor escolhido por ele. O que ele fez foi colocar as escolhas estéticas dele na encenação. E muitas vezes estão acusando ele de ter escrito o texto”, opinou um aluno do doutorado, que é branco. “O que vi foi um grupo de atores trabalhando, fazendo sua arte”.

Há quem rebata, por exemplo, a crítica de que o autor do espetáculo deve ter liberdade para encenar o que quiser. “O artista precisa pensar o que está produzindo e reproduzindo. A arte é política! Teve brechas no texto e na escolha de atores que fica claro o preconceito e o racismo”, afirmou uma aluna da pós-graduação e professora da Escola, que é branca.

Em nota, a Reitoria da Ufba diz que acompanha o caso e espera que o assunto seja resolvido na própria Escola. “A Reitoria confia que a solução virá através do diálogo franco, horizontal e democrático, guiado pelos ritos e mecanismos institucionais de autorregulação”.

Sistema de cotas 

 
O que todos concordam é que a Escola de Teatro e a Ufba vivem uma oportunidade única de discutir a questão racial. “Independentemente de qualquer coisa, esse é um momento importante de discutir o acesso de corpos negros ao palco sem que esses sejam inferiorizados. Nunca se deu atenção a isso. Esse é um momento único”, disse uma aluna da Escola, branca, que veio de outro estado. “De onde eu vim, eu não era confrontada com isso. Aqui percebi os meus privilégios”. 


Pixação na Escola de Teatro do Canela



Para alguns estudantes e professores, o movimento antirracista que eclode hoje é fruto da entrada de negros na universidade. Passados 14 anos da instauração do sistema de cotas, eles começaram a se sentir incomodados com  textos e conteúdos eurocêntricos. “Os textos de quase todas as peças são europeus. É preciso reinventá-los, desconstrui-los e criar textos negros. Começamos a tomar essa consciência após as cotas”, pontuou Ronald Vaz.

 Alguns estudantes da Escola de Teatro e da própria Ufba relatam atos de racismo por parte da vigilância privada da instituição, por exemplo. “Sou de religião de matriz africana e toda sexta o mesmo guarda deferia palavras de agressão religiosa contra mim”, relatou um aluno.

    “Os vigilantes da instituição precisam de uma reciclagem. O racismo está arraigado neles”, observou um aluno negro da graduação.

A direção da peça Sob as Tetas da Loba não se manifestou. Paulo Cunha, que adaptou texto do paulista Jorge Andrade, não atendeu as ligações da reportagem. O produtor do espetáculo, Victor Gonçalves, chegou a dar entrevista  na época do protesto. Afirmou que o texto da montagem “é o retrato de uma sociedade oligárquica que expõe, em quatro peças simultâneas, a desigualdade social entre brancos e negros”.

Quando a questão ganhou corpo, Gonçalves preferiu o silêncio. “Sendo bem sincero, eu não gostaria de dar nenhum tipo de entrevista”, escreveu no WhattsApp. Ele disse ter procurado o diretor Paulo Cunha sobre uma possível entrevista. “Falei com ele, mas não recebi nenhuma resposta concreta. O fato é que o caso está sob os cuidados da Reitoria e da direção da Escola de Teatro. Então, João ou Cláudio Cajaíba seriam as melhores pessoas”, indicou.

Termo de conduta


Cláudio Cajaíba, no caso, é o diretor da Escola. Após diversos contatos, ele apenas publicou uma pequena nota anunciando futuras medidas. O documento retira qualquer tipo de processo administrativo contra a Dandara Gusmão, que, inicialmente, responderia por perturbação da ordem pública. “Não há nenhum encaminhamento de processo disciplinar envolvendo os estudantes”.

A nota também garante que providências serão adotadas. O objetivo seria criar um Grupo de Trabalho “envolvendo as três categorias da Escola de Teatro e a Organização Dandara Gusmão no sentido de elaborar um termo de conduta para orientar as atividades artísticas e acadêmicas de combate ao racismo”.

“A Escola de Teatro não se posiciona sobre o racismo. Apenas indica a criação de um Grupo de Trabalho, mas não tem qualquer posicionamento”, lamenta Dêvid Gonçalves, um dos integrantes da Dandara Gusmão. O elenco da peça também foi procurado. Duas atrizes não responderam.

Dêvid acredita que o elenco tem receio em dar declarações porque teme boicotes. “Os estudantes têm medo de não entrarem mais em cena. Eles colocam o movimento como radical, mas os espetáculos negros que aconteceram na Ufba só foram possíveis por conta da organização. A culpa não é do elenco, é da instituição”, ponderou.

Vários estudantes e professores também chamaram a atenção para um aspecto que envolve eventos negros na Escola. O Fórum Negro de Artes Cênicas, por exemplo, seria apenas frequentado por negros. “Tive o prazer de participar dos dois últimos, mas não tive o prazer de ver um professor branco lá”, disse a militante negra Nadir Nóbrega, ex-aluna da Escola de Dança.

Fonte: Correio
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Adenilton Cerqueira

Adenilton Cerqueira é diretor de conteúdo do Portal Black Brasil, curador digital e produtor de conteúdo especializado em questões étnicas. Bastante contestador ele é consciente do seu propósito e exerce sua liberdade por meio da escrita. Contato: revistaafrobahia@yahoo.com.br