Mais uma exilada da era Bolsonaro: Camila Mantovani foi embora para não morrer

Após constantes ameaças de morte, Camila Mantovani, ativista evangélica pela descriminalização do aborto, decidiu deixar o Brasil

 
Em 4 de abril de 1968, o Reverendo Martin Luther King Júnior foi assassinado por ler a bíblia na perspectiva de um homem negro. King era uma criança questionadora, que não se contentava com fórmulas simples da Escola Bíblica Dominical e, por tanto questionar, decidiu ser teólogo e Pastor da Igreja Batista –  Graças a Deus! Nessa trajetória, King denunciou as injustiças de uma sociedade que separava negros e brancos, de forma cruel e violenta. O famoso discurso “I have a dream” foi proferido após uma marcha organizada por ele: a famosa “Marcha sobre Washington”, que reuniu mais de 250 mil pessoas que clamavam pelo fim da segregação racial nos Estados Unidos.

Ele desafiou muita gente poderosa. Juntamente com Rosa Parks, liderou o boicote de pessoas negras à empresa de ônibus de Montgomery. Jamais passaria pela cabeça dele aceitar que os negros não pudessem se sentar nos bancos dos brancos, ou que deviam ser obrigados a entrar pela porta dos fundos. Jamais. Sabe o que mais irritava os “cristãos de bem”? Era o fato de King usar a bíblia como instrumento de contra narrativa, como a verdade que liberta! Como o triunfo da misericórdia sobre o [falso] juízo! King era trigo, seus odiadores, joio.

No último final de semana, circulou pelas redes, e também na TV (veja a matéria do RJTV aqui), a notícia de que Camila Mantovani vai embora. 



Como King, Camila tem usado a bíblia como maneira de construir uma contra narrativa protagonizada por mulheres, seus corpos e suas vidas. Uma contra narrativa que busca na leitura da bíblia, pelos olhos das mulheres, instrumentos para combater o patriarcado. Camila é da Frente Evangélica pela Legalização do Aborto e por tal motivo tem recebido inúmeras ameaças pelas redes sociais. Ultimamente, vinha recebendo visitas de homens armados, sendo seguida pelas ruas e na faculdade. Camila perdeu o direito à liberdade e foi embora. E é bom que vá, pois a queremos viva.

Estamos cansadas de mártires, corpos negros aniquilados por estarem na contracorrente. King, Marielle. Dilma. Cláudia. Amarildo. Evaldo.  

Um país no qual o presidente declara que turista pode vir para o Brasil fazer sexo com nossas mulheres, não vai proporcionar segurança para nossas ativistas e defensoras dos Direitos Humanos. Pelo contrário. Para ele, nós somos um problema e mortas, somos troféus. Mas vamos mudar esse rumo. Numa rede linda de solidariedade e afeto, com a ajuda do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (Conic), Camila foi, está segura e continuará sua caminhada de denúncia, afeto e vida (veja a nota do Conic aqui)

Para nós que ficamos, nos resta a esperança da mudança, a sede de verdade e justiça. Nessa situação em que vivemos, quando uma pessoa querida se vai, parece que tudo está acabado e mergulhamos na solidão de quem fica. Não! O que é nosso, nesse momento, é o poder de ecoar a voz de quem sempre nos inspirou. A voz da Camila, minha querida amiga, ecoa no meu coração e em minha mente. E sairá em cada palavra, lágrima e suor meus. Te amo, Camila! O amor vence o ódio!


Carta de despedida de Camila Mantovani:

Perdi o direito! Perdi o direito de viver no meu próprio país! Quem defende a laicidade do Estado é massacrado por um Estado que não é laico. Perdi o direito de viver com minha família e meus amigos, de levar meu trabalho adiante. Perdi o direito de viver minha vida como a vivo hoje. Perdi esse direito porque o fundamentalismo que governa o Brasil hoje assassina qualquer profeta que denuncie o pecado das grandes lideranças. Perdi meus direitos porque um Brasil governado por evangélicos é um Brasil anti povo, anti direitos, anti pluralidade que é tão importante pra assegurar a democracia! Estou indo embora do país em exílio depois de esgotar todas as minhas possibilidades de ficar aqui e permanecer viva. Lutei o quanto pude pra não ter que sair, mas me colocaram no limite. Estou indo porque quero viver e quero viver porque quero continuar a construção de um outro mundo. Estou indo porque quero deixar minha família e meus amigos seguros. Estou indo, mas continuo a denúncia da barbárie que esse país se tornou sendo um país tão evangélico! Sigo na luta, porque a Despeito da igreja hegemônica que persegue e mata quem ousa contrariá-la, eu tenho comigo a força do Nazareno, do Deus que encarnou preto e pobre, do Deus que valorizava as mulheres. Eu sigo com Jesus Cristo, apregoando o Reino de Deus, mesmo que isso me custe a Cruz!

Me tiraram tudo. Mas o sorriso de quem tem paz no coração fica!

Aqui ou em qualquer lugar eu sigo pela vida das mulheres, pelo respeito a diversidade, pela garantia da democracia, contra o fundamentalismo religioso!

Da Luta, não me retiro

Camila Mantovani, abril de 2019.
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Adenilton Cerqueira

Adenilton Cerqueira é diretor de conteúdo do Portal Black Brasil, curador digital e produtor de conteúdo especializado em questões étnicas. Bastante contestador ele é consciente do seu propósito e exerce sua liberdade por meio da escrita. Contato: revistaafrobahia@yahoo.com.br