Documentário sobre mulheres negras na política inspiradas em Marielle busca financiamento

As diretores Júlia Mariano e Éthel Oliveira registraram a influência da vereadora no crescimento de mulheres na política brasileira.


A rotina de Mônica Francisco sendo registrada pelas cineastas. Foto: Divulgação.
 
Após o dia 14 de março de 2018, o Brasil nunca mais foi o mesmo. Após a execução da vereadora Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes — cujos mandantes ainda não foram descobertos — a população brasileira se viu indefesa perante organizações criminosas infiltradas nas autoridades e na política institucional que agem em nome dos próprios interesses, matando quem se colocar no seus caminhos. No entanto, Marielle Franco virou uma ideia à prova de balas e sua influência inspirou mulheres negras a disputarem seus espaços campo da política institucional brasileira. Esse movimento foi registrado pelas cineastas cariocas Júlia Mariano e Éthel Oliveira e uma equipe mulheres através do documentário Sementes que agora busca financiamento para ser finalizado.

A equipe, formada por mulheres, divulgou o trailer do documentário e a meta de 65 mil reais para lançá-lo. Segundo as cineastas, o filme foi feito sem qualquer apoio ou patrocínio financeiro desde julho/agosto de 2018. No melhor estilo guerrilha, a equipe está quase um ano fazendo o Semente. Agora, no entanto, o documentário precisa de apoio financeiro para ser terminado. O projeto, as metas e recompensas está disponível no site Benfeitoria e terminará em um pouco menos de duas semanas.




Sementes irá contar a história de seis mulheres que disputaram cargos políticos em 2018, na intenção de continuarem o legado de Marielle na política brasileira. A ex-vereadora, antes de ser executada, foi a única mulher negra a ocupar uma cadeira na Câmara dos Vereadores no Rio de Janeiro, eleita com mais de 46 mil votos. As personagens selecionadas foram Jaqueline de Jesus, Mônica Francisco, Renata Souza, Rose Cipriano, Tainá de Paula e Talíria Petrone. Cada uma representando pautas diferentes como questões LGBTQ, educação, segurança pública e letalidade policial, urbanismo e muito mais. Das seis personagens, três foram eleitas: Talíria foi eleita para o cargo de deputada federal; Renata e Mônica eleitas à deputadas estaduais do Rio de Janeiro. As documentaristas acompanharam a campanha e os primeiros dias das mulheres eleitas após tomar posse do cargo. Agora, elas buscam financiamento para registrar a rotina dessas mulheres durante primeiro ano delas como políticas eleitas.

As eleições de 2018 marcaram um momento importante para o país, especialmente no Rio de Janeiro. Segundo dados do Congresso em Foco, o estado registrou um aumento de 151% em comparação às eleições de 2014. Ao todo 237 mulheres negras se candidataram e seis foram eleitas. Evidente que ainda se trata de uma porcentagem pequena de representativa na política brasileira, porém é um começo.


Jaqueline de Jesus conversa com a população durante sua campanha política. Foto: Divulgação.

Segundo a cineasta e dona da produtora independente Noix Cultura, Júlia Mariano, a ideia de fazer o documentário começou após a roteirista e produtora do filme, Helena Dias, perceber o crescimento de pré-candidaturas em diversos cargos políticos de mulheres negras. Logo no começo do projeto, chamou Éthel de Oliveira e mais algumas mulheres negras para ocuparem cargos de decisão na confecção do documentário.

Ambas acompanharam toda a fase de campanha dos personagens e depois se separaram para registrar os primeiros dias das mulheres eleitas. Júlia, em Brasília acompanhando Talíria. E Ethel no Rio de Janeiro registrando a caminhada das políticas na ALERJ. Segundo Júlia, o ambiente e recepção hostil na Câmara dos Deputados em Brasília foi maior do que o esperado. “A figura da Talíria e da Áurea [Carolina, deputada eleita também pelo PSOL] se sobressaem muito naquele lugar. Você vê homens brancos vestidos com ternos da mesma cor e de repente aparece elas que são imagética e esteticamente diferentes", conta.


Recém-eleita a deputada federal, Talíria Perrone levanta a placa de Marielle Franco na Câmara. Foto: Tiago Dezan/Divulgação.

No dia da posse, Júlia percebeu que os próprios jornalistas que cobrem o dia-a-dia da política em Brasília estranharam a presença das deputadas. “Escutei alguém falando ‘quem são aquelas Marielles ali?’. A Talíria sempre era barrada na Câmara, mesmo usando aquele broche de identificação para deputados. Tudo mundo perguntava que gabinete ela iria visitar. (...) Senti é que existia na própria atuação dos funcionários da Câmara uma incapacidade que a Talíria, uma mulher de 33 anos e negra, estivesse ocupando aquele lugar.”

No Rio de Janeiro, Éthel acompanhou Mônica Francisco e Renata Souza tomando posse na ALERJ. “Esse filme é o registro do fazer político nesse momento da democracia brasileira sob a perspectiva das mulheres negras. Ela também tem um desejo de ser farol para que outras perspectivas de narrativas negras, que estão sendo feitas das mais variadas formas, seja registradas”, diz a cineasta.

Oliveira também frisa que o documentário tem como missão trazer novas narrativas no audiovisual sobre as reivindicações e conquistas do movimento negro. Para ela, não há interesse e sequer oportunidade para documentar e destacar a importância de figuras negras no país.

“Há uma constante reiteração do lugar político das pessoas brancas, e principalmente dos homens brancos na política. Porém, todas as conquistas políticas da população negra não foi benesse do branco, foi fruto de empenho intelectual e criativo do povo negro”, diz. “Não há registro ou são pouquíssimos registros desse empenho, uma vez que nós temos figuras notáveis para serem exaltadas como Jurema Werneck, Sueli Carneiro, Beatriz Nascimento entre muitas outras. (...) Quando os cineastas brancos fazem esse processo de memorialização dos seus ícones, se constrói na população brasileira um reportório onde o a política é um lugar branco. Se tivéssemos investido no registro de imagem políticas de diversas figuras importantes, talvez a gente não tivesse demorado tanto a se sentir à vontade nesse lugar da política institucional.”

O documentário Sementes registra um momento histórico do Brasil de rupturas democráticas, movimentos populares e o crescimento tardio da voz de mulheres negras em espaços tradicionais. Para colaborar com o projeto, acesse o site Benfeitoria para ver as recompensas. O projeto tem até o dia 13 de maio para bater a meta ideal de 65 mil reais.

Fonte: Vice

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