Disque-denúncia do Rio protege miliciano suspeito de matar Marielle


Foragido há mais de três meses e suspeito de envolvimento com a morte da ex-vereadora do Rio Marielle Franco (PSOL), o ex-capitão do Bope Adriano Magalhães da Nóbrega não consta na lista de divulgação de milicianos do governo Wilson Witzel como um dos procurados pelo estado. Autoridades fluminense acreditam que o ex-militar, foragido há mais de três meses, estaria envolvido com o chamado Escritório do Crime, grupo de matadores profissionais do Rio e suspeito de envolvimento com o assassinato da ex-parlamentar. Vale ressaltar que a mãe do policial trabalhou no gabinete do atual senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) - quando era deputado estadual, o próprio parlamentar fez homenagens ao ex-capitão. O curioso é que o governador não deu o mesmo tratamento a Wellington da Silva Braga, o Ecko, acusado de comandar uma milícia que atua na zona oeste e que criou franquias em outras áreas do estado. O chefe do Executivo estadual publicou em suas redes sociais uma imagem dele e oferecia uma recompensa de R$ 10 mil por informações sobre seu paradeiro.

"Um dos bandidos mais procurados do RJ, o miliciano Ecko está na mira da Justiça! Ele é mais um que não ficará impune. O governo Witzel e a @PCERJ [Polícia Civil] não darão trégua a nenhum miliciano!", escreveu Witzel sobre o foragido há um ano.

Outro detalhe que pode prejudicar a prisão de Adriano o nome dele está escrito de forma errada no Banco Nacional de Mandados de Prisão: Adriano Magalhães da Nbrega, sem o "o". O mesmo erro ocorre com o nome do pai do acusado. Também não consta o CPF do ex-PM. O banco nacional é um dos principais meios de consulta de foragidos no país.

Além de ter recebido homenagens de Flávio Bolsonaro, Adriano é amigo do policial militar reformado Fabrício Queiroz, ex-assessor do parlamentar e acusado de ter movimentações atípicas e milionárias identificadas pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). Sua mãe trabalhou no gabinete de Flávio Bolsonaro e fez parte do esquema de arrecadação de recursos para o clã Bolsonaro comandado por Queiroz. Da mesma forma, a ex-mulher de Adriano trabalhou com Flávio Bolsonaro.

Segundo o jornal Folha de S.Paulo, o coordenador do Disque-Denúncia, Zeca Borges, informou que a inclusão do nome de qualquer foragido no programa depende de solicitação das autoridades, como Polícia Civil e Ministério Público. "O Adriano tem o perfil de estar no programa. Mas dependendo do estágio da investigação, há casos em que as autoridades preferem não incluir. Em alguns casos específicos, pode prejudicar as investigações", disse Borges.

Em nota, o Ministério Público do Rio de Janeiro disse que enviou à Superintendência da Polícia Federal a inclusão de Adriano e outros seis foragidos à época "no sistema de procurados e impedidos da PF". "No ofício, o Gaeco/MPRJ [Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado] solicita também a difusão para o sistema de procurados da Interpol. Além disso, houve ampla divulgação na mídia de que o capitão Adriano está foragido. A Polícia Civil e todos os órgãos públicos, portanto, estão cientes do fato", disse o MP-RJ .

O Tribunal de Justiça informou que "um erro de grafia deste tipo não ocasiona prejuízo, pois o mandado contém a qualificação do acusado".

A defesa de Queiroz já afirmou que "repudia veementemente qualquer tentativa de vincular seu nome a milícia". Disse que ambos se conheceram quando trabalharam no 18° Batalhão da Polícia Militar.

De acordo com o advogado Paulo Klein, que defende Queiroz, o PM aposentado solicitou a nomeação da mulher e da mãe do colega para o gabinete de Flávio Bolsonaro porque a família passava por dificuldades financeiras. Para a defesa, Nóbrega estava "injustamente preso" em razão do processo em que fora condenado e depois absolvido por homicídio.
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Adenilton Cerqueira

Adenilton Cerqueira é diretor de conteúdo do Portal Black Brasil, curador digital e produtor de conteúdo especializado em questões étnicas. Bastante contestador ele é consciente do seu propósito e exerce sua liberdade por meio da escrita. Contato: revistaafrobahia@yahoo.com.br