Afrojob: Empreendedores apostam na confecção de acessórios em tecidos africanos e materiais da natureza

O compromisso de enfeitar corpos negros valorizando a cultura ancestral africana é uma característica que move algumas marcas de afroempreendedores de Salvador, como a Malikáfrica e a Adajó Aworan.


Catia Larissa é uma das empreendedoras da Malikáfrica / Foto: Rafael Santana - Reprodução - G1

[O G1 traz nesta quarta-feira (1º) o quarto episódio do Afrojob, quadro que trata sobre o afroempreendedorismo em Salvador. Você vai conhecer, todos os meses, histórias de pessoas negras que comercializam produtos e serviços voltados para a população preta]

Das primas Cátia Larissa e Viviane Vergasta, a Malikáfrica foi criada em meados de 2016 como um empreendimento de necessidade, ou seja: para complementar a renda financeira. O diferencial do negócio de Cátia e Viviane é que elas imprimem uma identidade étnica nas peças, que vão de brincos, colares e pulseiras, a sandálias, bolsas e mochilas.


Peças da Malikáfrica são produzidas em tecidos africanos / Foto: Arquivo pessoal

“A gente estava passando por uma situação de perrengue financeiro. Eu acredito que a maioria dos empreendedores iniciam dessa forma, numa necessidade de complementar a renda. Aí surgiu a ideia de produzir as peças baseando-se no tecido africano, que é um tecido ancestral, e trazendo modernidade a esse tecido”, conta Cátia.

Apesar da herança africana que carrega – inclusive no nome [malika significa rainha] – a Malikáfrica procura não segmentar o público. Além de produzir peças femininas e masculinas, as primas vendem acessórios para pessoas de todas as etnias.

“Não temos segmentação de só vender para negras e negros. Nós vendemos para qualquer pessoa que tenha interesse nesse empoderamento, que queira carregar essa ancestralidade. Mas a gente foca sim, na mulher negra", conta.

"A gente foca sim, no empoderamento e na resistência. Porque o empoderamento, querendo ou não, é uma prova da resistência”, avalia Cátia.

Hoje, a Malikáfrica comercializa os produtos pela internet, com entrega via correios, e em duas lojas colaborativas: o Ateliê Casa9 e no Coletivo de Entidades Negras – as duas no Centro Histórico da capital.

“Nós conseguimos organizar nossas finanças de uma forma positiva. Claro que, como todo empreendimento, a gente tem altos e baixos por conta da sazonalidade de venda", diz Cátia.

"Mas a gente consegue organizar de modo positivo, porque nós fazemos o que gostamos, mas a gente quer ser bem remunerado com isso”, revela a empreendedora.


Malikáfrica foi criada pelas primas Cátia Larissa e Viviane Vergasta em meados de 2016 como um empreendimento de necessidade / Foto: Arquivo pessoal

A internet, aliás, é uma das vitrines da Malikáfrica. Foi expondo as peças em mostruários e também em clientes que Cátia e Viviane conseguiram ampliar as vendas para encomendas especiais.

Em junho do ano passado, a Maliáfrica assinou os acessórios do musical infantil ‘Viagens da Caixa Mágica’, criado, produzido e musicado pelo ator, apresentador, cineasta e escritor Lázaro Ramos.

“Do meado para o final do ano passado, a produção do espetáculo entrou em contato com a gente, perguntando se a gente tinha a possibilidade de fazer algumas peças, para que os atores e músicos utilizassem durante o espetáculo”, lembra Cátia.

Biojoias e ancestralidade


Biojóias da Adajó Aworan / Foto: Itana Alencar - G1 BA

No caso do afroempreendedor Regys Araújo, o negócio surgiu de forma diferente. Espelhado na avó, que fazia bijuterias em casa para vender, ele começou a confeccionar acessórios para conseguir uma renda enquanto era estudante.

"Eu me inspirava na minha avó que fazia também as bijuterias, mas parou de fazer porque já não tinha mais condições. Eu comecei a fazer para ganhar uns trocados, quando estava no segundo grau [ensino médio]", lembra ele.

Regys concluiu o ensino médio e se formou em engenharia da pesca. A partir do contato com búzios e conchas durante o trabalho, ele percebeu que poderia transformar esse material em biojoias artesanais, assim nasceu a Adajó Aworan – que significa 'arte suprema' no idioma iorubá.

"Eu não imaginei que ia chegar a esse ponto, nesse nível de produção e de organização. Porque não basta só ter ideias, tirar do papel e começar a comercializar, para ser um empreendedor de sucesso. A gente precisa ter uma organização financeira, a gente precisa ter os pés no chão sempre. Geralmente, a gente tem muita dificuldade com recursos para investir no negócio", disse.


O empreendedor Regys Araújo confecciona todas as peças no ateliê que tem dentro de casa / Foto: Itana Alencar - G1 BA

A partir das criações das peças com os materiais naturais, Regys resolveu usar prata e ouro para incrementar os colares, brincos e pulseiras que produzia manualmente. Como tudo era feito artesanalmente, ele fez um curso de ouvires – tipo de metalurgia especialista em metais preciosos – e montou um ateliê dentro de casa, no ano passado.

As peças são vendidas pela internet, no mesmo sistema de entregas pelos correios, e em duas lojas colaborativas que também ficam no Centro Histórico de Salvador: a Botica Rhol e a Art Agô. Os produtos também podem ser encontrados em feiras como o Mercado Iaô, que acontecem por temporada.

Assim como a Malikáfrica, a Adajó Aworan também carrega a herança da africana nos acessórios, e busca dar uma identidade cultural às peças. No caso das biojoias produzidas por Regys, o traço do povo negro que é colocado no trabalho é a religião.

"Eu sou do candomblé e fui iniciado vai fazer uns seis anos. Minha família tem todo o histórico dentro do axé, então eu resolvi colocar essa herança no meu trabalho, em forma de homenagem. Hoje eu faço pulseiras e anéis com símbolos que representam Oxum, Oxóssi, Ogum e outros oxirás, que são divindades das nossas religiões de matrizes africanas", conta Regys.


As peças da Adajó Aworan também são vendidas em lojas colaborativas e na internet / Foto: Rafael Santana - G1

Fonte: G1

Campanha de assinaturas solidárias da Black Brasil. Veja como apoiar

 
Black Brasil © 2006 - Mostrando o que a grande mídia não vê - Whatsapp (71) 99249-7473 -