Protagonismo da favela: Rene Silva e o Voz das Comunidades apontam o futuro do jornalismo

A descentralização da comunicação certamente passa pelo avanço da tecnologia. No entanto, abundância tecnológica não é suficiente para que histórias deixadas de lado pela grande mídia sejam contadas.

Por isso, o trabalho realizado pelo jornalista Rene Silva no Voz das Comunidades é tão importante. Atualmente ele está com 24 anos, mas seu nome ficou famoso bem antes disso. Em 2010, aos 17 anos, ele deixou a mídia hegemônica no chinelo ao narrar pelo Twitter a ocupação do Complexo do Alemão pelas Forças Armadas.

Desde então, a plataforma expandiu, atuando em nove comunidades do Rio de Janeiro. A linha editorial é a de promover uma visão humanizada, diferente do estigma das balas perdidas, carros de polícia e tanques do exército propagado por jornais brasileiros diariamente. 



Rene dá o tom para a comunicação que vai transformar presente e futuro

“Hoje, somos capazes de transmitir informações e pleitear as maiores necessidades dos moradores das 9 comunidades que atuamos (Complexo do Alemão, Penha, Maré, Cidade de Deus, Vila Kennedy, Vila Vintém, Rocinha, Santa Marta, Pavão-Pavãozinho/Cantalago), aqui no Rio de Janeiro, com agilidade e eficácia, sempre trabalhando com o objetivo que o Voz das Comunidades sustenta desde 2005: Dar voz aos moradores, para que sejam vistos, lembrados e reconhecidos”, diz Melissa Cannabrava, coordenadora do Portal Voz das Comunidades, em conversa com Hypeness.

A violência existe? Claro que sim, não só no Rio, mas no Brasil todo. O Monitor da Violência, feito em parceria entre o Núcleo de Estudos da Violência da USP e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública aponta que, apenas no primeiro semestre de 2018, o país registrou mais de 28 mil assassinatos. 

   " Uma enorme parte da população acredita fielmente que todos que moram em comunidades são bandido ou coniventes. Caso contrário, não elegeriam um Governador [Wilson Witzel] que em toda sua campanha não proclamou nada de positivo para as favelas, além de ameaçar quem vive aqui ser metralhado por drones. Coisa que pode acontecer com qualquer um, mesmo a caminho cinema, na busca de um novo emprego ou curtindo um dia de lazer com a família. Só posso dizer que uma matéria nessa finalidade acaba com estereótipo quando moradores não forem mais abatidos durante operações ao ter um celular, uma bengala ou um guarda-chuva confundidos com armas". 


O protagonismo é da favela
 
Dá pra perceber que no Voz das Comunidades o lema não é ignorar a violência crescente, sim mostrar que a favela também é espaço de cultura e criatividade. Por isso, as matérias da plataforma compartilham informações de dentro para fora. O protagonismo é dos moradores.

“O favelado já nasce estereotipado. Infelizmente, esse tipo de matéria não ajuda a acabar com os estereótipos, mas alcança o nosso objetivo que é informar o morador. É para ele que escrevemos sobre o novo filme que irá estrear no Cinema da Nova Brasília, por exemplo. É para ele que vão as dicas de lazer, com valores acessíveis, para não faltar para comprar uma mistura no fim do mês”, explica.

Pensar no protagonismo do favelado, é pensar no protagonismo negro. Um importante levantamento feito pelo Instituto Data Popular mostrou lá em 2014, que cerca de 67% dos moradores de TODAS as comunidades do Brasil são negros. Pra completar, seis de cada dez já sofreram preconceito.



Vidas negras importam. E isso não é um slogan

Intervenção Federal vai resolver?

Em 2018, a segurança do Rio de Janeiro foi transferida para o colo dos comandantes do exército. A segunda maior cidade do Brasil ficou durante quase todo o ano inteiro sob o guarda-chuva de uma Intervenção Federal. A repressão tomou conta dos becos e vielas das favelas e zonas periféricas da cidade maravilhosa. Fórmula comum e ineficaz usada pelo Estado para resolver problemas sociais.

O fracasso é comprovado em números. Mesmo sem o mês de dezembro, 2018 foi o ano com maior número de mortes causadas por policiais no estado desde o início da série histórica, em 2003. Mais de 1.400 assassinatos, totalizando aumento de 39% em relação ao mesmo período (janeiro a novembro) de 2017.



A Intervenção Federal é a insistência de tratar desigualdade social como caso de polícia

O jornalista Rene Silva e a equipe do Voz das Comunidades comandada por Melissa enxergam a solução de outra maneira. “Nada se muda de um dia para o outro e não existe uma fórmula mágica e nenhum político que vai solucionar todos os problemas”, dá o tom.

Afinal, quem acredita que problemas históricos gerados por séculos de escravização de homens e mulheres negras e décadas de ditadura militar serão resolvidos na bala ou com repressão?

O Voz das Comunidades segue o caminho do compartilhamento e da solidariedade. Com a comunicação como fio condutor, a plataforma desenvolve ações de Páscoa, Natal e Dia das Crianças, além de oferecer atendimento psicológico, cursos de idiomas e por aí vai.



No Voz das Comunidades, a psicologia é outra

Identificação, oportunidades e humanidade são a chave. Ah, tecnologia também. No início da matérias apontamos o desenvolvimento tecnológico como coringa da comunicação no século 21. Rene, Melissa e equipe perceberam isso faz tempo.

   "Em relação a tecnologia, exploramos ao máximo! Produzimos diariamente matérias utilizando a plataforma Ao Vivo do Facebook, Rede de Transmissão do Whatsapp, e etc. O Renato Moura, nosso chefe de redação, está sempre ligado nas atualizações e sempre que possível reunimos nossa galera para palestras e workshops internos. Fazemos questão de dividir nosso conhecimento para implementar da melhor maneira no nosso veículo. Nas últimas ações produzidas pelo Voz, instruímos a equipe de jornalismo durante a cobertura com drones".

O negro influente no Brasil conservador

Rene Silva foi eleito em 2018 um dos 100 negros com menos de 40 anos mais influentes do mundo. A premiação foi concedida pela organização Mipad (Most Influential People of African Descent, ou Afro descendentes mais influentes, em português), de Nova York.



Rene Silva foi um dos 100 negros mais influentes do mundo em 2018

Mesmo com o trabalho de informar e manter os laços com sua comunidade do Alemão reconhecidos no exterior, o comunicador não escapa da teia cruel do racismo brasileiro. Rene Silva dividiu com usuários do Twitter dois casos de discriminação envolvendo o transporte por aplicativo.

    "+ uma vez, mais um caso, de motorista de @Uber_Brasil que me deixa na mão, só que esse foi mais cara de pau. Eu cheguei a bater na janela pra ele abrir a porta e ele fez o que? Meteu o pé!!! Eu quero saber como recíproca a conversa, pq ele perguntou se era pro Complexo do Alemão".

Na primeira vez, ele não conseguiu sair do Alemão. Assim que os motoristas viam a localização, cancelavam a corrida. Em outra oportunidade, na Barra da Tijuca – zona nobre do Rio de Janeiro, ele teve a corrida cancelada assim que o motorista viu seu rosto. Rene é homem e negro.

Para piorar, a eleição de Jair Bolsonaro (PSL) a reboque de uma forte onda conservadora é vista com apreensão pelo jornalista. Melissa conta um pouco da sensação ao subir o morro.

    "No dia 29 de outubro foi a primeira vez em 7 anos no Voz das Comunidades que subi o Complexo do Alemão com medo. Fui atrás de uma pauta em que precisávamos levar o tripé. Renato Moura me acompanhou como fotógrafo e conforme a gente ia passando por militares ao longo do morro, ouvimos piadas e risadinhas, pois estavam com a sensação de vitória do dia anterior. Nossa responsabilidade aumenta, assim como de todos os outros veículos de comunicação comunitária espalhados pela cidade".

É necessário terminar a reportagem com resiliência e espíritos elevados. Como tantos outros exemplos listados na reportagem, o Voz das Comunidades dá aos moradores de favelas, periferias, jovens e adultos negros, otimismo e esperança para encarar o futuro.

“Acredito que os veículos tradicionais estão se adaptando aos novos tempos e as Mídias Comunitárias, regionais em geral, estão tomando conta cada vez mais do espaço na comunicação. Já deveriam começar mudando desde as primeiras palavras do texto, quando se referem a um morador de favela negro como traficante e ao filho de um político branco como jovem no título de uma matéria”.

Fonte: Hypeness

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