Ela foi abusada e torturada pelo padrasto por 9 anos: "Não vivi, sobrevivi"

A estudante de direito Eva Luana, 21, de Camaçari (BA), conta que já não aguentava mais viver. Desde os 13 anos, ela sofria abusos e era torturada pelo padrasto Thiago Oliveira Alves, que foi preso no dia 13 de fevereiro, acusado de abuso, estupro de vulnerável e tortura. 


O marido da mãe da estudante a obrigava a comer até vomitar e, depois, a ingerir o próprio vômito, ficar em pé durante a noite toda ou, quando a deixava cair no sono, só podia deitar-se na casa do cachorro da família. "Eu já estava disposta a me matar ou sabia que ia acabar morrendo na mão dele", fala a jovem. "Eu não vivi, eu sobrevivi durante todos esses anos".

A história de Eva foi amplamente compartilhada nas redes sociais na última terça-feira (19). Após conversar com sua advogada, ela decidiu contar os abusos pelos quais passou em cinco posts no Instagram. "Apesar de ser uma história muito pesada, é a minha história. Eu decidi fazer as postagens para me proteger, pois tinha medo que algo me acontecesse, mas não imaginava que teria essa proporção toda", fala. 


Influenciadoras como Kéfera e Gabriela Luthai mandaram mensagens de apoio para a estudante. "Eu contei a minha história para proteger, também, as meninas do meu município, do meu Estado, que podem estar passando pela mesma coisa, e para conseguir que o processo corra mais rápido.

Uma vida de pesadelo.

Nos relatos, Eva narra que foi frequentemente estuprada pelo padrasto e que, por isso, teve de fazer uma série de abortos. Ela conta que tentou se matar algumas vezes e tinha crises de pânico e ansiedade, por causa das surras e de todo o sofrimento que passava em casa. A mãe também era alvo dos ataques e, inclusive, chegou a perder um bebê após ser espancada pelo então marido.

Quando Eva completou 18 anos, o homem usava seu nome para fazer uma série de empréstimos no banco. Como ele cursava a mesma faculdade que ela, obrigava a enteada a fazer seus trabalhos e responder suas provas pelo celular. Caso não o "ajudasse", sofria retaliações em casa: "Ele era um monstro, eu sofria muita opressão, o tempo todo. Estava muito fatigada", fala.





Eva não podia ter um namorado, mas ainda assim engatou um romance com o colega de estágio Mateus. "Mas o meu padrasto não podia saber. Eu tinha medo de que ele o matasse. Um dia, eu estava muito nervosa e acabei contando para Mateus o que acontecia comigo", fala. O ato foi o começo do fim de seu sofrimento.

A jovem fez a denúncia no dia 30 de janeiro de 2019. Porém, esta não foi a primeira vez que havia ido até a delegacia decidida a denunciar o padrasto. "Eu já tinha tentado fazer um boletim quando eu tinha 13 anos, mas ele nos ameaçou muito e eu acabei retirando a queixa. O Estado falhou em me proteger", afirma. Anos depois, ela voltou a buscar a Justiça ao receber o apoio do namorado e do juiz do fórum onde ela estagiava. "Eles fizeram eu me sentir protegida o bastante para tomar este passo".


O medo, no entanto, ainda era muito latente. A delegada Florisbela Rodrigues, da Delegacia Especial de Atendimento à Mulher de Camaçari (BA), lembra que Eva parecia muito assustada quando ela registrou a queixa. "Ela estava abalada, com muito, muito medo", comenta. "Nós tomamos rapidamente todas as medidas para manter esse agressor longe das vítimas".






{3} Minha irmã não tinha amor de um pai. Ela morria de medo dele pois sempre viu ele fazendo essas atrocidades conosco. Ele foi um pai macabro pra ela. Não tínhamos liberdade, respeito e cuidado. Nosso dinheiro era entregue pra ele sempre. Não tínhamos autoridade pra poder comprar ou utilizar como queríamos. Tapas inesperados, gritaria e agressões eram constantes a qualquer momento. Minha mãe apanhou tanto que teve um parto prematuro, meu irmão morreu depois de 6 dias de nascido. Quando ela estava grávida dele levou diversos chutes e joelhadas na barriga. Ele não queria mais um filho. Ela pulou um muro pra se salvar, mais de 2 metros de muro com as unhas. Eu passei em várias faculdades mas só pude ficar onde ele autorizou. Eu era vigiada. Meu aniversário foi comemorado no meu estágio e eu não pude estar presente. Dormia sempre na casinha da minha cachorra, local sujo e úmido sem ventilação ou janelas. Lá não tinha luz. Passei várias horas sem comer. Era obrigada a passar a madrugada inteira em pé , durante horas e horas, até amanhecer o dia. Já dormi na rodoviária várias vezes. Obrigada a ir e voltar da faculdade andando. Cruzava a cidade inteira tarde da noite com medo, fome e as vezes na chuva. Quando chegava em casa não podia sentar e tudo iniciava novamente. Eu já sai pelada na rua de madrugada e ele dizia que era para eu ser estuprada por homens. Ele tirava fotos minhas com o meu celular e enviava pra ele mesmo, pra fingir que era eu, criava conversas nojentas com ele mesmo. Meu celular era monitorado sempre. Eu perdi os amigos e a confiança na justiça. Minha família era proibida de se aproximar então todos achavam que eu e minha mãe não queríamos contato. Mas na verdade éramos proibidas por ele em tudo que fazíamos. Eu sinto ânsia, repulsa e pavor da presença dele. Eu tive tanto medo de morrer, de perder a minha irmã ou minha mãe. Ele é um monstro obsessivo e possessivo. Nossos gritos foram calados e tem muito mais pra contar que não daria pra escrever aqui. Eu tentei gravar um vídeo, mas pra mim foi muito mais pesado essa gravação .
Uma publicação compartilhada por Eva Luana 🌻 (@evalluana) em


Após ir até a delegacia, Eva não voltou mais para a casa onde a mãe e o padrasto moravam com sua irmã mais nova, de 6 anos. "Logo a minha mãe percebeu que algo estava errado e fez uma vigília. Mas a medida protetiva saiu no dia seguinte ao boletim de ocorrência e meu padrasto foi obrigado a sair da casa deles", diz. Desde então, a mãe e a irmã dela estão em um abrigo do Ministério Público, enquanto Eva está escondida na casa de conhecidos. "Não fiquei com medo porque ele não tinha como saber onde eu estava. Mas quem está me protegendo não é o Estado ou a polícia, são pessoas comuns que estão se arriscando para me ajudar", diz.

O padrasto de Eva está sob custódia da Justiça. De acordo com a delegada Florisbela, o inquérito foi finalizado e ele será julgado por abuso, estupro, estupro de vulnerável e tortura. O acusado diz, no entanto, que é inocente. A delegada disse que ele não tem um advogado de defesa. A reportagem entrou em contato com o Tribunal de Justiça, que disse que não pode dar detalhes sobre o caso, pois ele corre em segredo de justiça. Não se sabe se a Defensoria Pública de Camaçari designou um advogado para defender o homem. O órgão também foi procurado, mas ninguém atende o telefone divulgado no site da instituição.

Eva está aliviada com o desfecho, mas não está completamente tranquila. Ela diz acordar à noite gritando e ter pesadelos com tudo o que passou. "Ele ainda não está no presídio, então quero me manter em segurança", afirma. Ainda assim, pretende usar a repercussão de seu caso para ajudar outras mulheres que podem passar pela mesma situação. "O universo me trouxe essa oportunidade, então vou utilizá-la".
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Adenilton Cerqueira

Adenilton Cerqueira é diretor de conteúdo do Portal Black Brasil, curador digital e produtor de conteúdo especializado em questões étnicas. Bastante contestador ele é consciente do seu propósito e exerce sua liberdade por meio da escrita. Contato: revistaafrobahia@yahoo.com.br