Mulheres evangélicas formam resistência nas igrejas a favor de Haddad e da democracia


Nos últimos dias da corrida presidencial, a recuperação de Fernando Haddad (PT) tem contagiado a campanha e dado sinais de que a épica virada é muito possível. A última pesquisa Datafolha indicou que o candidato do Partido dos Trabalhadores reduziu a diferença para apenas cinco pontos nos votos totais contra seu adversário.

Um dos motores dessa onda, já chamada de tsunami, vem acontecendo dentro das igrejas evangélicas. Um reduto, até então, quase intransponível e amplamente favorável a Jair Bolsonaro, mas que parece ter despertado a tempo quanto ao perigo que a vitória do candidato da extrema direita representaria, sobretudo às mulheres evangélicas.

“Eu me senti ferida, me senti ameaçada com as falas dele. Sou mulher, sou evangélica, sou mãe e mãe de uma menina. Se eu já andava com medo, hoje ando com muito mais”, desabafa a psicóloga Marcella Marie de Paula Cavicchioli, 29 anos. Membro da Igreja Presbiteriana Independente, no centro da cidade de São Paulo, ela explicou que mesmo diante da enorme pressão e constrangimento, vindo de lideranças e de outros membros da igreja para que votasse em Bolsonaro, decidiu resistir, principalmente quando recebia notícias falsas pelas redes sociais. “Disseram que eu era comunista e esquerdopata por contestar aquelas informações. Deram a entender que eu era louca e fui chamada de desorientada política por um pastor. Isso não combina. Aprendi com meus pais, na Igreja, que só o amor vence. Eu estou triste. Sei que, lá no fundo, por mais que eu sofra agora, vai valer a pena por mim, por minha filha e pelas pessoas que amo”.


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A psicóloga diz que mesmo tendo optado por outra candidatura no primeiro turno, entendeu que o momento é de se posicionar. “As declarações do Bolsonaro vão contra o que penso. Vi muita ameaça, muita fuga e esquiva dele, muita agressividade em seus discursos. Isso me fez repensar muitas coisas”, conta. “Sempre fui muito crítica ao PT, continuo sendo, mas em relação ao Haddad, especificamente, o admiro como político. Foi um ótimo prefeito e descobri coisas muito bacanas dele de quando foi ministro da Educação”.

Para o pesquisador Clemir Fernandes, do Instituto de Estudos da Religião (Iser), no Rio de Janeiro, as mulheres estão em um processo de mudança e emancipação mais efetivo em comparação aos homens. “Elas foram mais para a universidade, o mercado de trabalho, mudaram costumes etc. Na igreja também, e entre mulheres mais pobres e pentecostais mais do que em mulheres de classe média de igrejas históricas”, observa ele. “Hoje mesmo ouvi de uma típica mulher evangélica de classe popular que ia votar no Bolsonaro mas mudou, assustada com essa coisa de dar armas para todos, até para crianças. O cuidado e a proteção do ‘instinto’ materno das mulheres com os filhos pode ser, ilustrativamente, um destes fatores de mudança do voto”, completa.

Um desses focos de resistência vem ocorrendo justamente dentro da Igreja Universal do Reino de Deus, onde um grupo de mulheres se negou a apoiar Bolsonaro, mesmo diante do apelo do pastor, que alegou ter recebido orientação da direção da denominação para que todos votassem no militar. “As mulheres com quem eu falei disseram. ‘Deus-o-livre’ votar nesse homem (Bolsonaro). As mulheres, todas elas, ficaram revoltadas. Elas disseram: ‘nós não vamos votar nesse homem não’. O pastor então disse que a gente votava em quem quisesse, que só estava dando o recado do bispo”, disse a fiel, que preferiu não ser identificada, mas que frequenta um dos templos da igreja do Bispo Macedo na zona leste da cidade de São Paulo.

Lucidez e coragem, substantivos femininos, como os que sobram à assistente social Priscila Queiroz, de 29 anos. Ela, junto com outras amigas e amigos evangélicos, distribuiu panfletos nas proximidades de igrejas, em especial na zona leste da cidade.  “A maioria das pessoas que receberam os panfletos sobre o Haddad foi receptiva, mas alguns nos trataram com certa hostilidade. Percebo que há muito acolhimento entre os jovens. Tiveram outros votos que conseguimos ‘virar’ também em encontros, em conversas pessoais. Devemos apostar nessas conversas”. Para ela, os debates nas redes sociais, por terem um caráter de enfrentamento, de hostilidade, não contribuíram muito. “A gente perde a chance do olho no olho, de conversar com afeto. Sinto que esses encontros pessoais tem mais chance de transformaram-se em votos mais certos.”

Priscila, que foi criada desde criança dentro de uma igreja evangélica, contou que a experiência de panfletar próximo às comunidades de fé teve um significado especial e afetivo. “Nossos ‘irmãos’ não são fascistas. Os que escolheram aquele candidato o fizeram porque acreditam na liderança de suas igrejas. Eles têm esse ensinamento, de submissão aos seus líderes. Também houve muita desinformação. As ‘fake news’ influenciaram muito nesse processo”.

A assistente social, no entanto, não perde o otimismo e nem o sorriso. Ainda mais depois de ter passado por experiências como uma recente visita que fez a uma senhora, já idosa, membro de sua igreja. “Eu visitei a ‘irmã’ e ela, super bonitinha, me contou que vai votar no Haddad. E estava muito convicta e consciente dos avanços no país durante os governos do PT. Ela dizia que não entendia o que acontecia com alguns ‘desses irmãos’ que declaravam voto em Bolsonaro”. Sabedoria de fé e de vida, amor e cuidado maternal que, ao que parece, pode levar essas mulheres a influenciar positivamente as eleições do próximo domingo.


Fonte: Rede Brasil Atual



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Adenilton Cerqueira

Adenilton Cerqueira é diretor de conteúdo do Portal Black Brasil, curador digital e produtor de conteúdo especializado em questões étnicas. Bastante contestador ele é consciente do seu propósito e exerce sua liberdade por meio da escrita. Contato: revistaafrobahia@yahoo.com.br