Contra a humilhação do golpe, reforma agrária popular

Atividade do Congresso do Povo no acampamento Marielle Vive, em São Paulo, aponta novos rumos para o Brasil


 O acampamento Marielle Vive, em Valinhos (SP), realizou, neste domingo (8), a primeira de três reuniões temáticas para o Congresso do Povo Brasileiro, iniciativa da Frente Brasil Popular que convoca a população a debater os rumos políticos, econômicos e sociais do Brasil.

Com pouco mais de 1,2 mil famílias registradas, o acampamento foi levantado pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em 14 abril deste ano em uma fazenda improdutiva que pertencia ao grupo Eldorado Empreendimentos Imobiliários.


http://www.primaveranoticias.com/2017/09/a-vida-boa-da-carmelita-acabou-quando.htmlCerca de 200 pessoas participaram da atividade do Congresso do Povo, que contou com a avaliação de conjuntura de Márcio Pochmann, doutor em ciência econômica da Universidade de Campinas (Unicamp), e de Márcio José, da coordenação nacional e da frente de massas do MST, que apresentou o projeto de reforma agrária popular defendido pelo movimento.

“Nós estamos em uma região que, graças ao trabalho escravo, já foi o principal centro produtor de café do mundo. Muitas famílias se tornaram poderosas assim”, relembrou Pochmann, que buscou apresentar o processo histórico que causou a desigualdade presente.

“Na década de 1930, após a crise do café, teve início o êxodo da população agrária para as cidades, e a estrutura existente de concentração fundiária e de segregação social/racial se transplantou”, prosseguiu.

Segundo Pochmann, a concentração sistemática de famílias vindas do campo nas cidades brasileiras serviu para criar um estoque de desempregados que pressiona os salários para baixo na indústria, além de empurrar famílias a prestar serviços domésticos em condições precárias para a elite econômica do país. Ao mesmo tempo, com o campo esvaziado, ficou mais fácil estabelecer latifúndios para o agronegócio.

“São imposições históricas de uma elite indiferente”, avaliou o professor. “Durante os governos do PT, o Brasil vinha se transformando, mas, para essa elite, um país justo e soberano não interessa. Por isso tivemos o golpe [contra a presidenta Dilma Rousseff, em 2016] e vivemos um governo [de Michel Temer, do MDB] de retrocessos e retirada de direitos”, completou.

Pochmann apresentou dados que comprovam o dano à representação política e econômica causada por esses processos no Brasil: hoje, apenas 40 mil fazendeiros controlam mais da metade dos 400 milhões de hectares de terra destinada à prática agrícola no país, e 180 deputados federais são considerados representantes do agronegócio corporativo –a chamada “bancada ruralista”.

Da mesma forma, enquanto o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) registra que 3,2% da população brasileira tem como ocupação “empresário”, 42% dos parlamentares com mandato atualmente se identificam como proprietários de negócios.

Reforma Agrária Popular

Márcio José, da coordenação nacional do MST, apresentou a alternativa que o MST defende para esse quadro social fraturado e excludente.

“O que chamamos de reforma agrária ‘clássica’ é o que ocorreu na Europa, em que o planejamento urbano e rural foi conjugado para equilibrar a propriedade e a produção agrária e industrial. Foi um movimento que contou com o apoio de uma burguesia mais progressista. Infelizmente, isso, no Brasil, não é possível”, apontou.

Segundo José, no país, os grandes donos de terra também são os industriais, empresários do setor financeiro e de mídia, e, mais recentemente, inclusive celebridades, como atletas, cantores sertanejos e pastores. “Terra é status”, ressaltou.

O Brasil sofre ainda do legado do período colonial: o modelo de produção rural vigente é marcado pelo latifúndio, a monocultura e a precarização do trabalho, com o objetivo de abastecer de matéria prima o mercado externo, e não de abastecer o próprio país.

“Por isso, defendemos a reforma agrária popular, feita a partir do povo, sem aliança com a burguesia, que respeita e defende o meio-ambiente e que possa produzir novas relações pessoais”, explicou.

O objetivo, portanto, é criar territórios de comunidade, em contraposição à propriedade privada. “Nós queremos permitir às dimensões humanas que sejam levadas ao extremo. Queremos democracia no conceito mais amplo da palavra”, resumiu José.

O sentimento do golpe

Organizados em núcleos, os acampados que participaram do debate expuseram a forma como têm se sentido nos últimos anos, desde a retomada de um projeto nacional neoliberal e antipopular puxado pelo governo golpista de Temer.

“Vivemos uma injustiça, onde a sociedade só pensa em si próprio. Antigamente a gente era unido com a família, nos reuníamos e fazíamos festa. Hoje não tem nada disso. A gente come arroz e feijão e dá graças a deus porque tinha”, contou o acampado Dionísio.

“Estamos à mercê de Deus, estou cansado. Me sinto humilhado e mal visto pela sociedade. Ou seja, estamos sendo mal tratados. Se você é da favela, você não é atendido, se você é do acampamento, você é mal visto”, relatou o acampado Rodrigo. Um outro acampado relatou que sofre preconceito até quando pretende comprar produtos nas lojas, onde se sente julgado pela sua aparência.

“Estamos vivendo a ditadura. Os nossos políticos dizem que a ditadura passou, mas não existe país democrático ainda. Estamos vivendo uma escravidão. Tanto é que quando pedimos empregos, eles nos pedem o comprovante de votos. Isso é voto de cabresto”, protestou a acampada Marlene.

“Temos sentido o aumento e a dificuldade de pagar o aluguel e comprar comida. Teve aumentos abusivos da água, da eletricidade e, principalmente, do gás de cozinha. Muitos de nós sofremos com desemprego, não conseguimos trabalho para nos sustentar. E as pessoas estão sentindo o ódio contra os pobres, que causa uma depressão muito grande, uma desesperança na melhoria da vida” contou o acampado Lopes.

“A gente conversou bastante no nosso núcleo, e todo mundo se sente explorado e incapaz. O retrocesso que está acontecendo todos os dias contra a gente é uma volta ao tempo dos escravos. São muitos impostos, os preços aumentos, nos fazem contrair dívidas. Há o sentimento de incapacidade de educar os filhos”, disse a acampada Naiara.

“A solução é continuar ocupando o campo e não deixar que a nossa população migre para ser explorada na cidade. Nós precisamos de uma aliança entre o povo do campo e da cidade para criar uma sociedade mais igualitária”, concluiu Naiara.

Fonte: Brasildefato

Campanha de assinaturas solidárias da Black Brasil. Veja como apoiar

 
Black Brasil © 2006 - Mostrando o que a grande mídia não vê - Whatsapp (71) 99249-7473 -