Internet é porta de entrada para empreendedoras no Brasil


Com cinco funcionários, milhares de seguidores em sua página e um financiamento coletivo bem-sucedido, Jaciana Melquiades é parte de um grupo cada vez maior e diverso: o de mulheres empreendedoras. Ela, que trabalha com sua própria empresa desde de 2013, e passou a viver dela nesse ano, é uma das milhares de brasileiras e latino-americanas que encontrou na internet um espaço montar seu próprio negócio.

No caso de Jaciane, se trata do "Era uma vez o Mundo", sua marca de brinquedos e produtos educacionais afrocentrados, que vão de bonecas a livros. A ideia de começar a criar e trabalhar com esse tema veio até a educadora por conta de sua vivência cotidiana.

— Aconteceu por conta das minhas experiências em sala de aula e do nascimento do meu filho. Sentia uma carência muito grande de materiais e brinquedos para eles. Não tenho paciência para ficar cobrando de empresas para que produzam. Comecei, então, a criar por conta própria, justamente pela falta de representatividade — explica ela, que no início desse ano saiu de seu emprego anterior, como professora contratada na UERJ, para se dedicar ao "Era uma vez no Mundo".

E a oportunidade para a mudança veio, justamente, pela internet. Jaciana, através de um financiamento coletivo, foi capaz de levantar R$ 20 mil reais para sua empresa, o que a permitiu se aplicar ao licenciamento do Inmetro, essencial para que distribua seus produtos em lojas físicas.

— A internet também é a única forma pela qual eu divulgo e vendo meus produtos. O aumento de números nas redes sociais, por exemplo, se reflete bastante nas vendas — conta Jaciana, que pretende começar uma fábrica na Baixada para seus brinquedos.

E ela não está sozinha. De acordo com um estudo sobre empreendedorismo feminino na América Latina, a maioria das mais de mil entrevistadas também veem um impacto direto da internet em seus negócios. A pesquisa, feita pela empresa de comunicação britânica Dentsu Aegis, falou com mulheres do Brasil, Argentina, México e Colômbia para traçar um perfil da empreendedora da região.

Entre os resultados, 88% disseram que a tecnologia tem um papel muito importante nos próprios empreendimentos. Além disso, 73% contaram utilizar as mídias sociais para alavancar os negócios. Dentre os quatro países, o Brasil se destacou no quesito: por aqui, 96% das entrevistadas afirmaram que a tecnologia impacta positivamente o trabalho.

A Horganópolis é outro empreendimento brasileiro fortemente beneficiado pelas redes sociais. Criado pela advogada Roberta Salvador, o serviço faz entregas semanais de alimentos orgânicos para seus clientes, e todo seu processo de vendas se dá online.

— Não seria exagero dizer que a internet é um dos pontos chave do negócio. Não temos loja física e nosso relacionamento com os clientes, por exemplo, se dá através das redes sociais — explica a empreendedora, que planeja a expansão da Horganópolis para São Paulo.

SÓ 5% RECEBEM APORTE FINANCEIRO

Tanto Roberta quanto Jaciane começaram seus negócios a partir das próprias economias, o que é comum no mundo empreendedor feminino. De acordo com o estudo da Dentsu, apenas 5% das mulheres receberam algum aporte financeiro vindo de banco ou outras instituições do tipo para colocar seus negócios de pé.

Essa falta de apoio de meios mais tradicionais, porém, acabou servindo também como catalisador para uma enorme rede de ajuda entre as empreendedoras. É o que conta Jaciana:

— Minha dica para quem está começando seria a de procurar quem já tem experiência no ramo. Isso muitas vezes pode nos dar o caminho das pedras para não cometermos o mesmo erro — argumenta.

Foi a partir dessa percepção, de que passava muitas das mesmas dificuldades que outras empreendedoras, que Ana Fontes decidiu criar a Rede Mulher Empreendedora, em São Paulo. Hoje contando com quase 300 mil mulheres, a rede surgiu em 2009 e oferece eventos, capacitação e mentorias, buscando superar algumas das diversas dificuldades do meio.

— As mulheres têm menos acesso a crédito do que os homens, as propriedades normalmente estão no nome deles, além de que as mulheres normalmente começam com negócios menores, sem apoio dos bancos — explica Ana. Ela também realça fatores como o acúmulo de tarefas domésticas e a falta de capacitação voltadas e específicas para o público feminino como barreiras que sobrecarregam as empreendedoras.

As abordagens, são muitas. No Brasil, de acordo com o estudo, 24% dos negócios envolvem produtos de beleza, 17% roupas e acessórios, 11% bebidas e alimentação, e apenas 2% tecnologia.

Mas, independente da área, o esforço costuma ser recompensador. Não apenas pela liberdade de horários e a possibilidade de trabalhar com o que gosta, mas também em retorno financeiro. Segundo o estudo, a renda salarial das mulheres empreendedoras chega a ser quatro vezes maior do que a nacional.

Fonte: Oglobo 

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